LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Elogio da vaidade, de Machado de Assis


Edio referncia: http://www2.uol.com.br/machadodeassis 
Publicado originalmente em O Cruzeiro 1878 

Logo que a Modstia acabou de falar, com os olhos no cho, a Vaidade empertigou-se e 
disse: 

I 

Damas e cavalheiros, acabais de ouvir a mais chocha de todas as virtudes, a mais pca, 
a mais estril de quantas podem reger o corao dos homens; e ides ouvir a mais sublime 
delas, a mais fecunda, a mais sensvel, a que pode dar maior cpia de venturas sem 
contraste. 
Que eu sou a Vaidade, classificada entre os vcios por alguns retricos de profisso; mais 
na realidade, a primeira das virtudes. No olheis para este gorro de guizos, nem para 
estes punhos carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me 
adorno. No olheis, digo eu, se tendes o preconceito da Modstia; mas se o no tendes, 
reparai bem que estes guizos e tudo mais, longe de ser uma casca ilusria e v, so a 
mesma polpa do fruto da sabedoria; e reparai mais que vos chamo a todos, sem os 
biocos e meneios daquela senhora, minha mana e minha rival. 
Digo a todos, porque a todos cobio, ou sejais formosos como Pris, ou feios como 
Tersites, gordos como Pana, magros como Quixote, vares e mulheres, grandes e 
pequenos, verdes e maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor 
o outro; a todos falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca  
refeio, a saber, com interesse, com graa, com amor. Porque nenhum, ou raro, poder 
afirmar que eu o no tenha alado ou consolado. 

II 

Onde  que eu no entro? Onde  que eu no mando alguma coisa? Vou do salo do rico 
ao albergue do pobre, do palcio ao cortio, da seda fina e roagante ao algodo escasso 
e grosseiro. Fao excees,  certo (infelizmente!) ; mas, em geral, tu que possuis, buscame no encosto da tua otomana, entre as porcelanas da tua baixela, na portinhola da tua 
carruagem; que digo? busca-me em ti mesmo, nas tuas botas, na tua casaca, no teu 
bigode; busca-me no teu prprio corao. Tu, que no possuis nada, perscruta bem as 
dobras da tua estamenha, os recessos da tua velha arca; l me achars entre dois 
vermes famintos; ou ali, ou no fundo dos teus sapatos sem graxa, ou entre os fios da tua 
grenha sem leo. 
Valeria a pena ter, se eu no realasse os teres? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que 
mandaste vir de to longe esse vaso opulento? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que 
encomendaste  melhor fbrica o tecido que te veste, a safira que te arreia, a carruagem 
que te leva? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que ordenaste esse festim babilnico, e 
pediste ao pomar os melhores vinhos? E tu, que nada tens, por que aplicas o salrio de 
uma semana ao jantar de uma hora, seno porque eu te possuo e te digo que alguma 
coisa deves parecer melhor do que s na realidade? Por que levas ao teu casamento um 
coche, to rico e to caro, como o do teu opulento vizinho, quando podias ir  igreja com 
teus ps? Por que compras essa jia e esse chapu? Por que talhas o teu vestido pelo 


padro mais rebuscado, e por que te remiras ao espelho com amor, seno porque eu te 
consolo da tua misria e do teu nada, dando-te a troco de um sacrifcio grande benefcio 
ainda maior? 

III 

Quem  esse que a vem, com os olhos no eterno azul?  um poeta; vem compondo 
alguma coisa; segue o vo caprichoso da estrofe.  Deus te salve, Pndaro! Estremeceu; 
moveu a fronte, desabrochou em riso. Que  da inspirao? Fugiu-lhe; a estrofe perdeuse entre as moitas; a rima esvaiu-se-lhe por entre os dedos da memria. No importa; 
fiquei eu com ele  eu, a musa dcima, e, portanto, o conjunto de todas as musas, pela 
regra dos doutores de Sganarello. Que ar beatfico! Que satisfao sem mescla! Quem 
dir a esse homem que uma guerra ameaa levar um milho de outros homens? Quem 
dir que a seca devora uma poro do pas? Nesta ocasio ele nada sabe, nada ouve. 
Ouve-me, ouve-se; eis tudo. Um homem caluniou-o h tempos; mas agora, ao voltar a 
esquina, dizem-lhe que o caluniador o elogiou. 

 No me fales nesse maroto. 
 Elogiou-te; disse que s um poeta enorme. 
 Outros o tm dito, mas so homens de bem, e sinceros. Ser ele sincero? 
 Confessa que no conhece poeta maior. 
 Peralta! Naturalmente arrependeu-se da injustia que me fez Poeta enorme, disse ele? 
 O maior de todos. 
 No creio. O maior? 
 O maior. 
 No contestarei nunca os seus mritos; no sou como ele que me caluniou; isto , no 
sei, disseram-mo. Diz-se tanta mentira! Tem gosto o maroto;  um pouco estouvado s 
vezes, mas tem gosto. No contestarei nunca os seus mritos. Haver pior coisa do quemesclar o dio s opinies? Que eu no lhe tenho dio. Oh! nenhum dio.  estouvado, 
mas imparcial. 
Uma semana depois, v-lo-eis de brao com o outro,  mesa do caf,  mesa do jogo, 
alegres, ntimos, perdoados. E quem embotou esse dio velho, seno eu? Quem verteu o 
blsamo do esquecimento nesses dois coraes irreconciliveis? Eu, a caluniada amiga 
do gnero humano. 
Dizem que o meu abrao di. Calnia, amados ouvintes! No escureo a verdade; s 
vezes h no mel uma pontazinha de fel; mas como eu dissolvo tudo! Chamai aquele 
mesmo poeta, no Pndaro, mas Trissotin. V-lo-eis derrubar o caro, estremecer, rugir, 
morder-se, como os zoilos de Bocage. Desgosto, convenho, mas desgosto curto. Ele ir 
dali remirar-se nos prprios livros. A justia que um atrevido lhe negou, no lha negaro 
as pginas dele. Oh! a me que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que pe nessa 
frgil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa me  Media, se a compararmos 
quele engenho, que se consola da injria, relendo-se; porque se o amor de me  a mais 
elevada forma do altrusmo, o dele  a mais profunda forma de egosmo, e s h uma 
coisa mais forte que o amor materno,  o amor de si prprio. 
IV 

Vede estoutro que palestra com um homem pblico. Palestra, disse eu? No;  o outro 
que fala; ele nem fala, nem ouve. Os olhos entornam-se-lhe em roda, aos que passam, a 
espreitar se o vem, se o admiram, se o invejam. No corteja as palavras do outro; no 
lhes abre sequer as portas da ateno respeitosa. Ao contrrio, parece ouvi-las com 
familiaridade, com indiferena, quase com enfado. Tu, que passas, dizes contigo: 

 So ntimos; o homem pblico  familiar deste cidado; talvez parente. Quem lhe faz 
obter esse teu juzo, seno eu? Como eu vivo da opinio e para a opinio, dou quele 

meu aluno as vantagens que resultam de uma boa opinio, isto , dou-lhe tudo. 
Agora, contemplai aquele que to apressadamente oferece o brao a uma senhora. Ela 
aceita-lho; quer seguir at a carruagem, e h muita gente na rua. Se a Modstia animara 

o brao do cavalheiro, ele cumprira o seu dever de cortesania, com uma parcimnia de 
palavras, uma moderao de maneiras, assaz miserveis. Mas quem lho anima sou eu, e 
 por isso que ele cuida menos de guiar  dama, do que de ser visto dos outros olhos. Por 
que no? Ela  bonita, graciosa, elegante; a firmeza com que assenta o p  
verdadeiramente senhoril. Vede como ele se inclina e bamboleia! Riu-se? No vos iludais 
com aquele riso familiar, amplo, domstico; ela disse apenas que o calor  grande. Mas  
to bom rir para os outros!  to bom fazer supor uma intimidade elegante! 
No devereis crer que me  vedada a sacristia? Decerto; e contudo, acho meio de l 
penetrar, uma ou outra vez, s escondidas, at s meias roxas daquela grave dignidade, 
a ponto de lhe fazer esquecer as glrias do cu, pelas vanglrias da terra. Verto-lhe o 
meu leo no corao, e ela sente-se melhor, mais excelsa, mais sublime do que esse 
outro ministro subalterno do altar, que ali vai queimar o puro incenso da f. Por que no 
h de ser assim, se agora mesmo penetrou no santurio esta garrida matrona, ataviada 
das melhores fitas, para vir falar ao seu Criador? Que farfalhar! que voltear de cabeas! A 
antfona continua, a msica no cessa; mas a matrona suplantou Jesus, na ateno dos 
ouvintes. Ei-la que dobra as curvas, abre o livro, compe as rendas, murmura a orao, 
acomoda o leque. Traz no corao duas flores, a f e eu; a celeste; colheu-a no 
catecismo, que lhe deram aos dez anos; a terrestre colheu-a no espelho, que lhe deram 
aos oito; so os seus dois Testamentos; e eu sou o mais antigo. 
V 

Mas eu perderia o tempo, se me detivesse a mostrar um por um todos os meus sditos; 
perderia o tempo e o latim. Omnia vanitas. Para que cit-los, arrol-los, se quase toda a 
terra me pertence? E digo quase, porque no h negar que h tristezas na terra e onde 
h tristezas a governa a minha irm bastarda, aquela que ali vedes com os olhos no 
cho. Mas a alegria sobrepuja o enfado e a alegria sou eu. Deus d um anjo guardador a 
cada homem; a natureza d-lhe outro, e esse outro  nem mais nem menos esta vossa 
criada, que recebe o homem no bero, para deix-lo somente na cova. Que digo? Na 
eternidade; porque o arranco final da modstia, que a ls nesse testamento, essa 
recomendao de ser levado ao cho por quatro mendigos, essa clusula sou eu que a 
inspiro e dito; ltima e genuna vitria do meu poder, que  imitar os meneios da outra. 
Oh! a outra! Que tem ela feito no mundo que valha a pena de ser citado? Foram as suas 
mos que carregaram as pedras das Pirmides? Foi a sua arte que entreteceu os louros 
de Temstocles? Que vale a charrua do seu Cincinato, ao p do capelo do meu cardeal de 
Retz? Virtudes de cenbios, so virtudes? Engenhos de gabinete, so engenhos? Tragame ela uma lista de seus feitos, de seus heris, de suas obras duradouras; traga-ma, e eu 
a suplantarei, mostrando-lhe que a vida, que a histria, que os sculos nada so sem 
mim. 
No vos deixeis cair na tentao da Modstia:  a virtude dos pecos. Achareis decerto, 
algum filsofo, que vos louve, e pode ser que algum poeta, que vos cante. Mas, 
louvaminhas e cantarolas tm a existncia e o efeito da flor que a Modstia elegeu para 
emblema; cheiram bem, mas morrem depressa. Escasso  o prazer que do, e ao cabo 
definhareis na soledade. Comigo  outra coisa: achareis,  verdade, algum filsofo que 
vos talhe na pele; algum frade que vos dir que eu sou inimiga da boa conscincia. Petas! 
No sou inimiga da conscincia, boa ou m; limito-me a substitu-la, quando a vejo em 
frangalhos; se  ainda nova, ponho-lhe diante de um espelho de cristal, vidro de aumento. 
Se vos parece prefervel o narctico da Modstia, dizei-o; mas ficai certos de que 
excluireis do mundo o fervor, a alegria, a fraternidade. 
Ora, pois, cuido haver mostrado o que sou e o que ela ; e nisso mesmo revelei a minha 
sinceridade, porque disse tudo, sem vexame, nem reserva; fiz o meu prprio elogio, que  


vituprio, segundo um antigo rifo; mas eu no fao caso de rifes. Vistes que sou a me 
da vida e do contentamento, o vinculo da sociabilidade, o conforto, o vigor, a ventura dos 
homens; alo a uns, realo a outros, e a todos amo; e quem  isto  tudo, e no se deixa 
vencer de quem no  nada. E reparai que nenhum grande vcio se encobriu aindacomigo; ao contrrio, quando Tartufo entra em casa de rgon, d um leno a Dorina para 
que cubra os seios. A modstia serve de conduta a seus intentos. E por que no seria 
assim, se ela ali est de olhos baixos, rosto cado, boca taciturna? Podereis afirmar que  
Virgnia e no Locusta? Pode ser uma ou outra, porque ningum lhe v o corao. Mas 
comigo? Quem se pode enganar com este riso franco, irradiao do meu prprio ser; com 
esta face jovial, este rosto satisfeito, que um quase nada obumbra, que outro quase nada 
ilumina; estes olhos, que no se escondem, que se no esgueiram por entre as 
plpebras, mas fitam serenamente o sol e as estrelas? 

VI 

O qu? Credes que no  assim? Querem ver que perdi toda a minha retrica, e que ao 
cabo da pregao, deixo um auditrio de relapsos? Cus! Dar-se- caso que a minha rival 
vos arrebatasse outra vez? Todos o diro ao ver a cara com que me escuta este 
cavalheiro; ao ver o desdm do leque daquela matrona. Uma levanta os ombros; outro ri 
de escrnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabea; e 
todas, todas as plpebras parecem baixar, movidas por um sentimento nico. Percebo, 
percebo! Tendes a volpia suprema da vaidade, que  a vaidade da modstia. 

Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica 


